Mapa regulatório
O relógio dos reguladores: onde o Brasil está no mapa da transição pós-quântica
Europa, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália já marcaram data para trocar a criptografia que o computador quântico vai quebrar. O Brasil ainda não. O Índice de Exposição Quântica da GWK, medido em 74.831 organizações, mostra onde o Brasil está e por que, para boa parte da economia, 2035 chega tarde.
Um prontuário médico aberto hoje precisa continuar em sigilo até pelo menos 2046. Se a conexão que o transporta for copiada esta semana e guardada, quem a copiou pode esperar até que um computador quântico consiga abri-la, e o dado ainda terá valor até 2046. Nenhum regulador do mundo marcou prazo tão longo. Os cronogramas param em 2035.
Neste recorte, a GWK cruza os prazos publicados por nove jurisdições com o que o Índice de Exposição Quântica (IEQ) observa em 74.831 organizações de 14 setores. Entre as 3.231 brasileiras em que o teste obteve leitura, 556 (17,2%) negociaram troca de chaves híbrida pós-quântica. Nos Estados Unidos, foram 24,5%; na Austrália, 26,0%.
De onde vêm os números
O IEQ é o índice com que a GWK mede, organização por organização, quanto da informação cifrada continua exposta ao computador quântico e por quanto tempo isso importa. A coleta observa só o que cada organização já expõe na internet: conecta ao domínio principal como qualquer visitante, lê a criptografia negociada no handshake e não usa agente, credencial nem acesso a sistema interno. A edição de outubro de 2026, com coleta de 2 de setembro, cobre 80.182 organizações de vários países; esta análise usa as 74.831 de setor reconhecido.
O resultado combina três dimensões: a vulnerabilidade da criptografia em uso, a exposição observável da superfície e o horizonte de sigilo do setor. A metodologia é pública, com a base formal em preprint no arXiv, e o catálogo público mostra uma amostra anonimizada dos sinais de cada organização. A análise olha países e setores, nunca empresas. Nenhuma organização é citada.
Dois números para o mundo
Quase todos os cronogramas publicados convergem para dois anos: 2030 para o que é crítico e 2035 para o restante. A União Europeia pede que os casos de alto risco estejam migrados até o fim de 2030 e o resto até o fim de 2035. O Reino Unido e o Canadá usam 2031 para as prioridades e 2035 para o fim. A Austrália tem o prazo mais curto: recomenda abandonar a criptografia clássica vulnerável até o fim de 2030.
Quem marcou data, e com que força.
Marcos publicados até 20 de outubro de 2026. Brasil e China não fixaram prazo.
Consultar os valores
| Ano | Marco | Natureza | |
|---|---|---|---|
| União Europeia | 2026 | planos nacionais | Recomendação |
| União Europeia | 2030 | alto risco migrado | Recomendação |
| União Europeia | 2035 | risco médio migrado | Recomendação |
| EUA, agências federais | 2030 | troca de chaves dos sistemas críticos | Obrigação |
| EUA, agências federais | 2031 | assinaturas | Obrigação |
| EUA, agências federais | 2035 | migração completa | Obrigação |
| EUA, padrão técnico | 2030 | descontinuar algoritmos vulneráveis | Proposta em rascunho |
| EUA, padrão técnico | 2035 | proibir algoritmos vulneráveis | Proposta em rascunho |
| Reino Unido | 2028 | inventário e plano | Recomendação |
| Reino Unido | 2031 | prioridades | Recomendação |
| Reino Unido | 2035 | migração completa | Recomendação |
| Canadá | 2026 | plano | Recomendação |
| Canadá | 2031 | alta prioridade | Recomendação |
| Canadá | 2035 | demais sistemas | Recomendação |
| Austrália | 2030 | parar de usar criptografia clássica vulnerável | Recomendação |
| Singapura | 2027 | plano | Recomendação |
| Singapura | 2031 | infraestrutura crítica | Recomendação |
| Singapura | 2035 | demais organizações | Recomendação |
| G7, setor financeiro | 2031 | sistemas críticos (2030 a 2032) | Recomendação |
| G7, setor financeiro | 2035 | meta geral | Recomendação |
Fonte: documentos oficiais de cada jurisdição, listados em Método e fontes.
A maior parte desses marcos é recomendação. A obrigação com data, por enquanto, vale para as agências federais dos Estados Unidos, que precisam migrar a troca de chaves dos sistemas críticos até 31 de dezembro de 2030 e as assinaturas em 2031. O par 2030 e 2035 do NIST, citado com frequência como prazo legal, continua em rascunho desde novembro de 2024. Para o setor financeiro, o G7 publicou em janeiro de 2026 uma referência de 2030 a 2032 para os sistemas críticos.
O Brasil no mapa
Em 30 de janeiro de 2026, a Instrução Normativa ITI nº 35 incluiu os algoritmos pós-quânticos padronizados internacionalmente, ML-DSA e ML-KEM, entre os padrões da ICP-Brasil. A infraestrutura de chaves públicas do país passou a admitir criptografia pós-quântica. A norma, porém, não fixa prazo para migrar, nem na ICP-Brasil nem em qualquer setor.
O Banco Central tratou o tema em março como “um assunto emergente” que está “estudando”. Se seguir o G7, o sistema financeiro brasileiro terá 2030 a 2032 como referência para os sistemas críticos. Até lá, entre as jurisdições deste mapa, só Brasil e China não fixaram prazo.
O que a base mostra
A diferença aparece na rede. Na base do IEQ, Austrália, EUA, Canadá e Reino Unido lideram a troca de chaves híbrida. Ter cronograma, porém, não basta: França, Alemanha, Itália, Espanha e Países Baixos, cobertos pelo roteiro europeu, ficam abaixo do Brasil. Uma hipótese é que a adoção dependa mais da configuração padrão de CDNs e provedores de hospedagem do que da regulação. O Brasil fica abaixo da média da base, de 19,4%.
Ter cronograma não basta: a Europa continental fica abaixo do Brasil.
% das organizações do país em que o teste negociou troca de chaves híbrida pós-quântica. A linha clara é a base inteira.
Consultar os valores
| Valor (%) | |
|---|---|
| Austrália | 26,0 |
| EUA | 24,5 |
| Canadá | 22,6 |
| Reino Unido | 22,5 |
| Índia | 21,9 |
| Brasil | 17,2 |
| China | 16,2 |
| França | 15,4 |
| Espanha | 14,8 |
| Itália | 13,9 |
| Países Baixos | 13,0 |
| Alemanha | 12,8 |
| Japão | 9,5 |
| Base toda | 19,4 |
Fonte: base IEQ, edição de outubro de 2026. País pelo cadastro de origem de cada organização.
A outra face é a criptografia clássica ainda em uso. Entre as organizações brasileiras com leitura, 2.902 (89,8%) aceitam troca de chaves que um computador quântico suficientemente capaz poderia quebrar. É a maior proporção entre os países com mais organizações na base do IEQ, contra 84,0% no conjunto. Os dois números descrevem coisas diferentes e coexistem no mesmo servidor: aceitar troca clássica é o que o servidor ainda permite, e negociar troca híbrida é o que ele escolhe quando o visitante oferece essa opção.
Setor a setor
O recorte por setor mostra onde o atraso pesa mais. O governo brasileiro tem a menor adoção do país: 45 de 415 organizações com leitura (10,8%), contra 14,8% no resto da base. Saúde, energia e varejo também ficam abaixo. Finanças (22,6% contra 19,9%), Imobiliário (28,8% contra 23,7%) e Jurídico (33,7% contra 25,0%) ficam acima do resto da base.
No Brasil, o governo tem a menor adoção.
% com troca de chaves híbrida, Brasil contra o resto da base. Setores ordenados pelo horizonte de sigilo, do mais longo ao mais curto.
Consultar os valores
| Brasil (%) | Resto da base (%) | |
|---|---|---|
| Governo (20 anos) | 10,8 | 14,8 |
| Imobiliário (20 anos) | 28,8 | 23,7 |
| Saúde (20 anos) | 17,6 | 20,1 |
| Indústria crítica (15 anos) | 17,6 | 18,4 |
| Energia (10 anos) | 13,7 | 19,1 |
| Finanças (10 anos) | 22,6 | 19,9 |
| Contabilidade e auditoria (7 anos) | 16,5 | 25,8 |
| SaaS (6 anos) | 18,3 | 19,5 |
| Telecom (6 anos) | 15,3 | 15,0 |
| Jurídico (5 anos) | 33,7 | 25,0 |
| Varejo (5 anos) | 16,3 | 21,7 |
Fonte: base IEQ, mesma edição. Só setores com pelo menos 30 organizações brasileiras (K = 30).
O relógio do dado
É aqui que entra a terceira dimensão do IEQ. A ameaça tem nome, colher agora e decifrar depois, e só pesa enquanto o dado ainda vale alguma coisa. Por isso o índice atribui a cada setor um horizonte de sigilo, TD: por quantos anos a informação representativa daquele setor continua valiosa para quem a capturar. Saúde, governo, defesa e imobiliário trabalham com 20 anos, ancorados na guarda legal do prontuário e dos registros públicos. Indústria crítica, com 15. Finanças, pagamentos e energia, com 10. O varejo, com 5, o prazo do cadastro de consumidor pela LGPD e pelo CDC.
Somado ao ano da captura, esse horizonte diz até quando o dado colhido continua útil a quem o guardou. Uma organização que cumpra a meta de 2030 ainda terá trafegado, até a véspera da migração, informação que vale por mais 5 a 20 anos.
Até quando o dado capturado continua sensível.
Horizonte de sigilo de cada setor somado ao ano da captura. As linhas tracejadas marcam 2030 e 2035.
Consultar os valores
| Dado capturado hoje | Último dado capturado antes de migrar no fim de 2030 | |
|---|---|---|
| Saúde, Governo, Defesa e Imobiliário | 2026 a 2046 | 2030 a 2050 |
| Indústria crítica | 2026 a 2041 | 2030 a 2045 |
| Finanças, Pagamentos e Energia | 2026 a 2036 | 2030 a 2040 |
| Nuvem, Contabilidade e auditoria | 2026 a 2033 | 2030 a 2037 |
| SaaS e Telecom | 2026 a 2032 | 2030 a 2036 |
| Jurídico e Varejo | 2026 a 2031 | 2030 a 2035 |
Fonte: premissas setoriais do IEQ (TD), ancoradas na guarda legal de cada setor. São premissas documentadas, não medições do dado de cada empresa.
O próprio roteiro europeu usa esse critério para medir risco: dá a nota de impacto 3 ao dado cuja confidencialidade precisa durar além de 2035, o que leva o risco ao nível “alto”. Pela régua dos horizontes setoriais do IEQ, 47.484 organizações da base (63,5%) já produzem hoje informação nessa faixa. Considerando a migração em 2030, elas são 59.329 (79,3%). No cenário de migração no fim de 2030, só jurídico e varejo terminam a janela dentro de 2035.
Um mapa que o Brasil ainda pode desenhar
O prazo brasileiro ainda vai ser escrito, e quem escrever vai precisar de evidência do próprio setor. A GWK produz recortes da base do IEQ por setor e por país, com o mesmo método desta análise, para associações setoriais, reguladores e grupos de pesquisa que queiram medir onde o seu setor está antes de marcar data. Para uma organização, o caminho é o Relatório de Exposição, que lê o próprio domínio contra o setor, ou uma avaliação autorizada dentro do ambiente, onde passa a informação que a superfície pública não mostra. Os produtos estão em gwksecurity.com/produtos.
Para levar à próxima reunião de segurança
Quatro perguntas que todo gestor deveria saber responder
O Brasil ainda vai receber o seu prazo. Quem trata dado de vida longa pode ordenar a casa antes dele. Estas perguntas organizam a ordem:
- Que informação capturada hoje pela sua organização ainda precisará estar em sigilo depois de 2035, e por quais canais ela trafega?
- Os fornecedores de borda à frente desses canais (CDN, balanceador, VPN) já oferecem troca de chaves híbrida pós-quântica, e ela está ligada?
- Se o Banco Central adotar 2030 a 2032 para sistemas críticos, quais dos seus sistemas entram nessa lista?
- O plano de migração está ordenado pelo tempo de vida do dado que cada sistema carrega, ou só pela criticidade atual?
Alguma delas ficou sem resposta clara? É por aí que começa uma avaliação autorizada.
Falar com a GWKMétodo e fontes
Uma edição, uma base de referência.
Os números vêm da edição de outubro de 2026 da base do IEQ, com 74.831 organizações de setor reconhecido. A unidade é a organização, observada pelo seu domínio principal; o país vem do cadastro de origem e está disponível para 68.036 delas. Cada percentual conta só as organizações em que o sinal foi lido. Coortes abaixo de K = 30 não são publicadas.
Observado: a troca de chaves negociada e a criptografia clássica em uso, lidas no handshake TLS público. Assumido: o horizonte de sigilo TD de cada setor. O IEQ mede a superfície pública; rede interna, VPNs e conexões com fornecedores estão fora da medição. A comparação entre países mostra uma correlação com a existência de cronograma, não uma relação de causa.
Fontes regulatórias, conferidas em 20 de outubro de 2026:
- União Europeia: Coordinated Implementation Roadmap for the Transition to Post-Quantum Cryptography (junho de 2025) e perguntas frequentes do roteiro (abril de 2026).
- Estados Unidos: OMB M-26-15 (junho de 2026) e NIST IR 8547, rascunho (novembro de 2024).
- Reino Unido: NCSC, Timelines for migration to post-quantum cryptography (março de 2025).
- Canadá: roteiro de migração do Governo do Canadá (junho de 2025).
- Austrália: ASD, Planning for post-quantum cryptography.
- Singapura: CSA, Advisory on Quantum-Safe Migration for Organisations (outubro de 2026).
- G7: Cyber Expert Group, roteiro para o setor financeiro (janeiro de 2026).
- Brasil: Instrução Normativa ITI nº 35/2026 e declaração do Banco Central à Finsiders (março de 2026).
Encontrou algo a corrigir? Escreva para [email protected]. Correções entram numa nova edição, com data.
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