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Recorte setorial

Indústria: o cofre pode ser bom. O problema é quando ele precisa falar.

O cofre protege o segredo guardado; quando ele circula, quem protege é a criptografia. Um recorte das 14.958 indústrias da base do IEQ mostra a postura criptográfica pública do setor e por que, no modelo, o dado industrial vale por mais tempo.

Matheus Rufino8 min de leitura

Um segredo industrial pode estar guardado num cofre excelente. Mas um projeto que nunca sai do cofre não vira produto. Ele vai para o fornecedor que fabrica a peça, para a outra planta, para o parceiro que certifica. O cofre protege o segredo guardado. Quando ele circula, quem o protege é a criptografia, e o tráfego copiado hoje pode ser lido daqui a alguns anos.

Neste recorte, a GWK examina a postura criptográfica pública dos domínios principais de 14.958 organizações industriais. Em 82% delas, o teste não negociou troca de chaves híbrida pós-quântica, e o modelo atribui ao dado industrial um dos horizontes de valor mais longos da base.

Esta análise olha o recorte industrial da base do IEQ como setor, não empresa por empresa. Usa apenas o que o IEQ observa de fora e diz, a cada passo, o que é medição e o que é premissa do modelo. Nenhuma organização é citada.

Por que olhar a indústria

A indústria é o maior setor da base: 14.958 organizações, cerca de 19% das 80.182 da edição atual. Ainda assim, a conversa pública sobre a transição pós-quântica costuma se concentrar em bancos e governos.

As análises anteriores mostraram que o tempo de valor da informação muda a leitura dos mesmos sinais técnicos. A indústria é onde esse efeito aparece com mais nitidez fora dos setores habituais: sua superfície técnica se parece com a dos demais, enquanto seu dado vive muito mais do que no varejo ou no software.

Três condições para o risco existir

Capturar agora e decifrar depois só vira problema quando três coisas acontecem ao mesmo tempo. O IEQ observa a primeira, aproxima a segunda e assume a terceira.

  1. 01ObservadoA conexão negocia uma troca de chaves que um computador quântico suficientemente capaz poderia quebrar. Isso é lido diretamente no handshake TLS público.
  2. 02AproximadoUm adversário consegue alcançar e guardar esse tráfego. O IEQ não observa captura. Mede a exposição operacional da superfície pública (dimensão E) como indicação de quão alcançável ela é.
  3. 03PremissaA informação ainda tem valor quando a decifração se torna possível. Isso é um parâmetro setorial documentado, não uma medição do dado de cada empresa.

Toda leitura desta análise se refere à superfície pública do domínio principal de cada organização. Rede interna, sistemas de controle industrial, VPNs e conexões com fornecedores estão fora da medição.

O relógio do dado

O IEQ atribui a cada setor um horizonte de tempo, TD: por quantos anos a informação representativa daquele setor continua valiosa para um adversário. Para a indústria o parâmetro é de 15 anos, dentro de uma faixa documentada de 10 a 20. O modelo usa o prazo de 20 anos de proteção de patentes como referência para o teto.

O varejo trabalha com 5 anos, finanças com 10, saúde e governo com 20. Combinado ao cenário de capacidade do modelo, o horizonte industrial se traduz em H = 0,88, contra 0,21 no varejo.

Figura 01 · Premissa do modelo

Por quanto tempo o dado vale, por setor.

TD em anos. O mesmo valor vale para todas as organizações do setor.

Fonte: premissas setoriais do IEQ V2 (mediana do ativo representativo). São premissas documentadas, não medições de quanto tempo o dado de cada empresa permanece sigiloso.

A indústria na base

No lado técnico, a indústria se parece com a base como um todo. A mediana da vulnerabilidade criptográfica, V, é 0,9971, contra 0,9985 na base; a mediana da exposição operacional, E, é 0,5286, contra 0,5270.

O índice conta outra história. O IEQ mediano da indústria é 87,5, com metade do setor entre 83,1 e 89,9. A mediana da base é 59,5. A indústria fica logo abaixo dos setores com horizonte de 20 anos e bem acima de finanças.

Figura 02 · Evidência GWK

Superfície parecida, índice mais alto.

IEQ mediano por setor, de 0 a 100.

Consultar os valores e o tamanho das coortes
Base IEQ V2, edição de 7 de outubro de 2026. V, E e IEQ: medianas por coorte. TD e H: parâmetros setoriais do modelo.
SetorOrganizaçõesVETDHIEQ
Governo7.2030,99850,5190200,955998,1
Saúde10.4950,99710,5254200,955994,8
Defesa1.2520,99710,5344200,955994,6
Imobiliário2.3950,99710,5384200,918192,7
Indústria14.9580,99710,5286150,878487,5
Energia3.4210,99850,5246100,706670,3
Finanças7.5740,99850,5098100,659166,3
Telecom2.4171,00000,532460,445345,1
SaaS8.2360,99850,522460,340934,7
Varejo14.1070,99710,537650,211121,8

Fonte: base IEQ V2, edição de 7 de outubro de 2026. Dez setores selecionados, todos acima do piso de anonimato (K = 30).

A indústria combina medianas técnicas próximas às da base com IEQ mediano de 87,5. No modelo, a prioridade também depende do tempo durante o qual a informação permanece valiosa, fixado em 15 anos para o setor.

O que vemos de fora e o que fica embaixo

Entre as 13.657 organizações industriais em que a coleta obteve leitura, 11.165 (81,8%) não negociaram troca de chaves híbrida pós-quântica no teste. Na base, a proporção é de 80,7%. Dito de outro modo, quase uma em cada cinco negociou esse tipo de troca no teste.

As práticas básicas acompanham a base de perto. A diferença mais clara é o HSTS, ausente em 57,8% da indústria, contra 53,9% na base. TLS 1.0 ou 1.1 ainda é aceito por 13,9%; essa leitura tem cobertura menor, porque protocolos antigos nem sempre podem ser testados.

Figura 03 · Sinais observados

A indústria acompanha a base, com diferenças pequenas.

Criptografia em uso

% das organizações em que o sinal foi observado

Práticas básicas

% das organizações em que o sinal foi observado

Consultar contagens e cobertura
Indústria: 14.958 organizações. "Observadas" conta só as organizações em que a coleta trouxe leitura daquele sinal.
SinalObservadasCom o sinalIndústriaBase
Não negociou troca híbrida pós-quântica no teste13.65711.16581,8%80,7%
Cifras com troca de chaves clássica quebrável por algoritmo quântico13.62211.18082,1%84,1%
Aceita TLS 1.0 ou 1.110.4421.45513,9%13,1%
Sem HSTS13.4037.74657,8%53,9%
Sem DNSSEC14.80414.03694,8%93,7%
Sem registro CAA14.88712.65485,0%81,8%
Certificado autoassinado13.083460,4%0,3%

Fonte: base IEQ V2, mesma edição. Cada percentual conta só as organizações em que aquele sinal foi lido; as que ficaram sem leitura saem do numerador e do denominador.

A ponta do iceberg

A borda pública é a parte que se observa de fora. É a ponta. Embaixo estão as VPNs com fornecedores, o acesso remoto para manutenção, os links entre plantas, os serviços de troca de arquivos e a rede de fábrica. De fora, o IEQ não os vê, não sabe que informação de fato passa pela superfície observada e não sabe se alguém a capturou. Também lê só o domínio principal, não cada subsidiária ou marca.

Se a ponta já mostra esse quadro, o resto merece ser olhado. Com autorização da organização, a mesma medição pode rodar dentro do seu ambiente, nos canais que de fato carregam projetos e contratos, e ler a parte do iceberg que não aparece de fora.

Para levar à próxima reunião de segurança

Quatro perguntas que todo gestor industrial deveria saber responder

Um relógio de dado longo não pede uma tecnologia diferente. Pede outra ordem de prioridades. Estas perguntas a organizam:

  1. Quais projetos, formulações, dados de processo e contratos continuarão sensíveis daqui a dez ou quinze anos, e por quais canais trafegam hoje?
  2. Os fornecedores de borda à frente desses canais (CDN, balanceador, VPN) já oferecem troca de chaves híbrida pós-quântica, e ela está ligada?
  3. O básico de baixo custo está feito: TLS legado desligado, HSTS ativo, certificados emitidos sob uma política declarada?
  4. O plano de migração ordena os sistemas pelo tempo de vida do dado que carregam, e não só pela criticidade atual do sistema?

Alguma delas ficou sem resposta clara? É por aí que começa uma avaliação autorizada.

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Método e fontes

Uma edição, uma base de referência.

Os números vêm da edição de 7 de outubro de 2026 da base IEQ V2, com 80.182 organizações. A unidade é a organização, observada pelo seu domínio principal. Coortes abaixo de K = 30 não são publicadas. Esta edição conserva os dados utilizados, independentemente de atualizações posteriores do catálogo.

Observado: os sinais da Figura 03 e as dimensões V e E. Assumido: o horizonte setorial TD e o parâmetro H dele derivado. Quando um sinal não tem leitura para uma organização, ele não conta nos percentuais acima; no índice, entra com valor neutro. O IEQ é um índice de exposição: seus valores não são probabilidades de ataque. O modelo não está calibrado contra ocorrências confirmadas de exploração HNDL.

Encontrou algo a corrigir? Escreva para [email protected]. Correções entram numa nova edição, com data.

Abaixo da ponta

Meça os canais por onde seus segredos passam.

Converse com a GWK sobre uma avaliação autorizada dentro do seu ambiente, ou veja como o IEQ lê a indústria.

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Matheus Rufino

Sobre o autor

Matheus Rufino

Fundador & CEO · GWK Security

Doutor em Física

Lidera a direção científica e estratégica. Autor principal do arcabouço formal do IEQ.

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Davi Carvalho

Agradecimento

Davi Carvalho

Diretor de Projetos · Nusa Brands

MBA em Finanças (UFRGS) · Marketing

Agradecemos a Davi Carvalho, que sugeriu o recorte setorial e a estrutura desta análise. Participação independente, sem vínculo com a GWK.

Lidera o desenvolvimento estratégico e criativo de projetos de marca. Antes, atuou em relacionamento com empresas e instituições no Santander, na XP e no Bradesco.

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