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Mapa regulatório

O relógio dos reguladores: onde o Brasil está no mapa da transição pós-quântica

Europa, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália já publicaram marcos de migração pós-quântica. O Brasil ainda não fixou um prazo; esta análise compara esses cronogramas com sinais e premissas da base do IEQ.

Matheus Rufino7 min de leitura

Na configuração atual do IEQ, o setor de saúde usa um horizonte operacional de 20 anos, baseado numa proxy de guarda regulatória. Esse valor não fixa um prazo legal de sigilo nem demonstra por quanto tempo cada prontuário conserva valor estratégico. No cenário HNDL, o tráfego copiado hoje só importa se o dado ainda tiver valor quando um computador criptograficamente relevante puder quebrar a cifra usada. Os marcos de migração que comparamos chegam a 2035.

Neste recorte, a GWK cruza os prazos publicados por oito jurisdições — e, em separado, o cronograma técnico do NIST e a referência do G7 para o setor financeiro — com a base do Índice de Exposição Quântica (IEQ): 74.831 organizações de 14 setores. Os resultados brasileiros com sinal lido e seus denominadores estão detalhados abaixo.

De onde vêm os números

O IEQ estima a exposição HNDL a partir de sinais públicos do domínio principal e da premissa operacional de horizonte setorial. A coleta conecta ao domínio principal como qualquer visitante e lê a troca de chaves negociada no handshake TLS. Não usa agente, credencial ou acesso interno, e não inventaria toda a criptografia da organização. A edição de outubro de 2026, com coleta de 2 de setembro, cobre 80.182 organizações de vários países; esta análise usa as 74.831 de setor reconhecido.

O resultado combina três dimensões: a vulnerabilidade da criptografia em uso, a exposição observável da superfície e a premissa setorial de TD. A metodologia é pública, com a base formal em preprint no arXiv, e o catálogo público mostra uma amostra anonimizada dos sinais de cada organização. A análise olha países e setores, nunca empresas. Nenhuma organização é citada.

Dois números para o mundo

Quase todos os cronogramas publicados convergem para dois anos: 2030 para o que é crítico e 2035 para o restante. A União Europeia pede que os casos de alto risco estejam migrados até o fim de 2030 e o resto até o fim de 2035. O Reino Unido e o Canadá usam 2031 para as prioridades e 2035 para o fim. A Austrália tem o prazo mais curto: recomenda abandonar a criptografia clássica vulnerável até o fim de 2030.

Figura 01 · Fontes oficiais

Quem marcou data, e com que força.

Marcos publicados até 31 de outubro de 2026. Brasil e China não fixaram prazo.

Consultar os valores
AnoMarcoNatureza
União Europeia2026planos nacionaisRecomendação
União Europeia2030alto risco migradoRecomendação
União Europeia2035risco médio migradoRecomendação
EUA, agências federais2030troca de chaves dos sistemas críticosObrigação
EUA, agências federais2031assinaturasObrigação
EUA, agências federais2035meta principal para concluir a migraçãoMeta federal
NIST, cronograma do IR 8547 final2030após 2030: descontinuar algoritmos vulneráveisRelatório técnico final
NIST, cronograma do IR 8547 final2035após 2035: não permitir o uso desses algoritmos sob padrões NISTRelatório técnico final
Reino Unido2028inventário e planoRecomendação
Reino Unido2031prioridadesRecomendação
Reino Unido2035migração completaRecomendação
Canadá2026planoRecomendação
Canadá2031alta prioridadeRecomendação
Canadá2035demais sistemasRecomendação
Austrália2030parar de usar criptografia clássica vulnerávelRecomendação
Singapura2027planoRecomendação
Singapura2031infraestrutura críticaRecomendação
Singapura2035demais organizaçõesRecomendação
G7, setor financeiro2031sistemas críticos (2030 a 2032)Recomendação
G7, setor financeiro2035meta geralRecomendação

Fonte: documentos oficiais de cada jurisdição, listados em Método e fontes.

A maior parte desses marcos é recomendação. Nos Estados Unidos, a ordem executiva e o memorando OMB M-26-15 exigem que sistemas federais de alto valor adotem troca de chaves pós-quântica até 31 de dezembro de 2030 e assinaturas digitais até 31 de dezembro de 2031. Separadamente, o NIST publicou a versão final do IR 8547 em 27 de outubro de 2026: o relatório prevê descontinuar algoritmos de chave pública vulneráveis após 2030 e não permitir seu uso sob padrões e diretrizes do NIST após 2035. Esse cronograma técnico não é uma lei geral para empresas privadas. Para o setor financeiro, o G7 publicou em janeiro de 2026 uma referência de 2030 a 2032 para sistemas críticos.

O Brasil no mapa

Em 30 de janeiro de 2026, a Instrução Normativa ITI nº 35 incluiu os algoritmos pós-quânticos padronizados internacionalmente, ML-DSA e ML-KEM, entre os padrões da ICP-Brasil. A infraestrutura de chaves públicas do país passou a admitir criptografia pós-quântica. A norma, porém, não fixa prazo para migrar, nem na ICP-Brasil nem em qualquer setor.

O Banco Central tratou o tema em março como “um assunto emergente” que está “estudando”. Se seguir o G7, o sistema financeiro brasileiro terá 2030 a 2032 como referência para os sistemas críticos. Até lá, entre as jurisdições deste mapa, só Brasil e China não fixaram prazo.

O que a base mostra

Entre as 3.231 organizações brasileiras em que o teste obteve leitura no handshake TLS, 556 (17,2%) negociaram troca de chaves híbrida pós-quântica. A base não é uma amostra aleatória do país. Para os demais países, esta publicação não informa quantas organizações tiveram leitura; por isso, não usamos os percentuais disponíveis para montar um ranking internacional.

Figura 02 · Sinal observado

556 de 3.231 organizações brasileiras negociaram troca híbrida.

17,2% das organizações brasileiras com leitura. O teste observou o handshake TLS público do domínio principal; a base não é amostra aleatória.

Consultar os valores
Valor (%)
Brasil · n = 3.23117,2

Fonte: Base IEQ, edição de outubro de 2026; coleta de 2 de setembro. O numerador e o denominador para o Brasil constam nesta publicação.

Na mesma base brasileira, 2.902 das 3.231 organizações com leitura (89,8%) aceitaram troca de chaves clássica vulnerável. Esse sinal descreve o que o servidor aceita; a troca híbrida descreve o que foi negociado quando o teste ofereceu essa opção. São duas observações diferentes do handshake, não uma avaliação da criptografia interna da organização.

A publicação não mostra os denominadores de leitura por setor. Por isso, esta edição não compara percentuais de adoção híbrida entre setores. Os horizontes setoriais usados pelo IEQ são premissas operacionais; não medem por quanto tempo os dados de cada empresa precisam permanecer confidenciais ou conservam valor estratégico.

O relógio do dado

É aqui que entra a terceira dimensão do IEQ. A ameaça tem nome, colher agora e decifrar depois, e só pesa enquanto o dado ainda vale alguma coisa. No artigo, TD é o tempo durante o qual o texto cifrado capturado conserva valor estratégico. A configuração operacional atual atribui 20 anos a saúde, governo, defesa e imobiliário; 15 à indústria crítica; 10 a finanças, pagamentos e energia; 7 a nuvem, contabilidade e auditoria; 6 a SaaS e telecom; e 5 a jurídico e varejo. Para saúde, os 20 anos usam o prazo mínimo de guarda do prontuário como proxy operacional. A proxy não transforma guarda em prazo de sigilo nem prova que cada prontuário conserve valor estratégico por 20 anos.

Somado ao ano da captura, o TD gera um horizonte operacional no cenário do modelo. Assim, uma organização que cumpra a meta de 2030 ainda teria tráfego capturado antes da migração ao qual se aplicariam horizontes setoriais de 5 a 20 anos. Isso não mede a confidencialidade necessária nem o valor estratégico de cada dado.

Figura 03 · Premissa do modelo

Ano da captura + horizonte operacional do IEQ.

Cada faixa soma a premissa setorial de TD ao ano da captura. É um cenário do modelo, não prazo legal nem medição da confidencialidade ou do valor dos dados de uma organização. As linhas tracejadas marcam 2030 e 2035.

Consultar os valores
Dado capturado hojeÚltimo dado capturado antes de migrar no fim de 2030
Saúde, Governo, Defesa e Imobiliário2026 a 20462030 a 2050
Indústria crítica2026 a 20412030 a 2045
Finanças, Pagamentos e Energia2026 a 20362030 a 2040
Nuvem, Contabilidade e auditoria2026 a 20332030 a 2037
SaaS e Telecom2026 a 20322030 a 2036
Jurídico e Varejo2026 a 20312030 a 2035

Fonte: Premissas operacionais setoriais do IEQ (TD). Em saúde, o valor atual de 20 anos usa o prazo mínimo de guarda do prontuário como proxy, não como prazo de sigilo. Os valores são hipóteses do modelo, não medições dos dados de cada empresa.

O próprio roteiro europeu usa esse critério para medir risco: dá a nota de impacto 3 ao dado cuja confidencialidade precisa durar além de 2035, o que leva o risco ao nível “alto”. Aplicando as premissas setoriais atuais do IEQ à base, o cenário de captura hoje coloca 47.484 organizações (63,5%) além de 2035. Para dados capturados antes de uma migração no fim de 2030, o número seria 59.329 (79,3%). Sob a mesma hipótese, só os horizontes de jurídico e varejo terminam até 2035. Esses cálculos aplicam os TD do modelo; não medem o prazo de sigilo necessário para cada dado.

Um mapa que o Brasil ainda pode desenhar

O prazo brasileiro ainda vai ser escrito, e quem escrever vai precisar de evidência do próprio setor. A GWK produz recortes da base do IEQ por setor e por país, com o mesmo método desta análise, para associações setoriais, reguladores e grupos de pesquisa que queiram medir onde o seu setor está antes de marcar data. Para uma organização, o caminho é o Relatório de Exposição, que lê o próprio domínio contra o setor, ou uma avaliação autorizada dentro do ambiente, onde passa a informação que a superfície pública não mostra. Os produtos estão em gwksecurity.com/produtos.

Para levar à próxima reunião de segurança

Quatro perguntas que todo gestor deveria saber responder

O Brasil ainda vai receber o seu prazo. Quem trata dado de vida longa pode ordenar a casa antes dele. Estas perguntas organizam a ordem:

  1. Que informação capturada hoje pela sua organização ainda precisará estar em sigilo depois de 2035, e por quais canais ela trafega?
  2. Os fornecedores de borda à frente desses canais (CDN, balanceador, VPN) já oferecem troca de chaves híbrida pós-quântica, e ela está ligada?
  3. Se o Banco Central adotar 2030 a 2032 para sistemas críticos, quais dos seus sistemas entram nessa lista?
  4. O plano de migração está ordenado pelo tempo de vida do dado que cada sistema carrega, ou só pela criticidade atual?

Alguma delas ficou sem resposta clara? É por aí que começa uma avaliação autorizada.

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Método e fontes

Uma edição, uma base de referência.

Os números vêm da edição de outubro de 2026 da base do IEQ, com 74.831 organizações de setor reconhecido. A unidade é a organização, observada pelo domínio principal; o país vem do cadastro de origem e está disponível para 68.036 delas. Cada percentual conta apenas organizações em que o sinal correspondente foi lido. Coortes abaixo de K = 30 não são publicadas.

Observado: a troca de chaves negociada e a criptografia clássica em uso, lidas no handshake TLS público. Premissa do modelo: o horizonte setorial TD. O IEQ mede a superfície pública; rede interna, VPNs e conexões com fornecedores estão fora da medição.

Fontes regulatórias, conferidas em 31 de outubro de 2026:

Encontrou algo a corrigir? Escreva para [email protected]. Correções entram numa nova edição, com data.

GWK Insights

Leve este recorte para o seu setor.

Associações, reguladores e empresas podem trabalhar com a GWK em recortes da base do IEQ e em avaliações autorizadas dentro do próprio ambiente.

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Matheus Rufino

Sobre o autor

Matheus Rufino

Fundador & CEO · GWK Security

Doutor em Física

Lidera a direção científica e estratégica. Autor principal do arcabouço formal do IEQ.

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